O sustentável não é convencional!

Vamos conversar sobre como nós vemos as coisas sendo sustentáveis? Ou melhor: como mudar a chave dentro da nossa mente para conseguirmos aprender a ser mais sustentáveis sem grilos.

Ao pensar em consumir um produto sustentável, a primeira coisa é refletir se realmente precisa dele. O segundo ponto é sobre o ciclo de produção. Esse produto é realmente sustentável, ou é só mais um produto com ciclo de produção normal? Em geral, produtos ecológicos não tem o padrão mercadológico. Se você só quer trocar um produto convencional por um eco e espera que ele seja igual com pegada ecológica, isto já é um engano. Em geral, pra ser eco e respeitar o ciclo de produção, eles vão fugir do convencional. Os produtos naturais, por exemplo, podem não fazer a mesma quantidade de espuma que os convencionais, mas isso não significa que eles não funcionem. É preciso entender que não se pode esperar o mesmo padrão mercadológico das coisas. Não tem motivo pra elas serem iguais. Não é preciso que elas sejam iguais. As esponjas são um bom exemplo disso!

Ao mudar a chave para o consumo sustentável é preciso considerar o lugar onde são fabricados os produtos e o processo de fabricação. Se ele é feito no exterior e é mais barato que o nacional, se questione ainda mais sobre o ciclo produtivo. Eu sempre falo sobre os canudos chineses, que em geral são mais baratos que os nacionais, mas você sabe como ele é fabricado e qual o ciclo produtivo envolvido? Vai que ele é fabricado com aço brasileiro na China e chega aqui de navio e é mais barato que o nacional… Vale lembrar, ainda, que a China é a segunda maior produtora de lixo plástico do mundo! Ou seja, ao comprar um produto fabricado lá, estamos todos contribuindo com este índice. Dos Estados Unidos também, porque eles são os primeiros.

Me parece que algo não está muito consoante com a ideia de ser eco. De consumir produtos locais, fortalecer o mercado nacional. E outro ponto é qualidade, não é porque é eco que não precisa ter qualidade. Em geral o feito a mão costuma ter mais qualidade que os fast-fashions. E se você se questiona quanto a quem fez suas roupas, deve também se questionar sobre quem planta sua comida, quem vende sua comida, quem fez seu canudo!

A reciprocidade é muito importante em consumo eco. Pense em si mesmo nestas horas, se você tivesse um negócio de artesanato; arte; moda; alimentação, iria querer uma indústria estrangeira que usa mão de obra duvidosa concorrendo com seus produtos? Imagine que é assim que os pequenos produtores locais se sentem. A gente sempre será oprimido por uma grande indústria capitalista. E isto não é o que o movimento deseja. Isto não sustentável.

Eu tinha um tio italiano que dizia que o grande problema da crise econômica italiana foram os estrangeiros e seus produtos baratos e sem qualidade. A princípio soa preconceituoso com os estrangeiros, contudo ele falava em específico da estratégia dos chineses em fazer produtos de baixo custo que geraram concorrências desleais e acabaram com muitos pequenos negócios de artesanato italiano. E o feito a mão era um das bases da economia italiana. “O importado é mais barato” — Será mesmo? Qual será o seu real custo? Este é um dos motivos pelo quais eu vivo falando sobre os produtos chineses. Os donos de grandes indústrias não querem um mundo melhor, querem aumentar faturamento com nichos de mercado.

Quando eu viajo observo o comércio local. E em geral, lojas de souvenir deixaram de ser de produtos feitos a mão por artesãos locais e tudo passou a ser ‘made in’ com custos e qualidade baixos. Lojas abarrotadas de quinquilharias que, sinceramente, não refletem em nada o espírito das cidades.

Li em comentários de uma postagem no Instagram que ao invés de comprar o copo X porque ele é muito caro - eu também acho - a pessoa comprou um copo Y por 3,99 na lojinha de ‘made in’ da esquina. Será mesmo que a qualidade e ciclo produtivo dos dois são equivalentes? Será que é possível comparar os custos dessa maneira? Qual a garantia que temos sobre um produto se dizer sustentável e realmente ter um ciclo produtivo que dê esse direito a ele? Existem selos que garantem que produtos são orgânicos, mas estes selos são pagos e como nada sai de graça nessa vida, nem todos os produtores tem condições de tê-los. Imagino que um selo verde no Brasil também terá altos custos, dificultando a adesão. Então, por hora, acredito que o melhor seja conhecer quem faz, conhecer seu processo produtivo e que essa pessoa seja transparente com seus consumidores!

Transparência do processo produtivo é importante neste mercado. Aqui ainda não tem um texto explicativo sobre todo meu processo, farei, mas é possível ver sobre ele em várias postagens do meu Instagram. Sempre falo sobre isto, porque é importante para o meu produto. E não é só o ciclo dele que é cuidadoso, eu mudei vários hábitos, digamos assim, insustentáveis do meu modo de vida. E isto pra não me sentir sendo apenas uma oportunista do mercado. A que fabrica o canudo, mas não tem na bolsa! Ou estas pessoas das fotos: Tem canudo de inox, mas o resto em volta tá tudo embalado no plástico, inclusive o coco. 

Ou essa que fez o canudo com uma ponta de plástico preso um por um com lacre plástico. Ou esse canudo de silicone, quem nem é um material reciclado no Brasil. Alguns justificariam isso como sendo a opção para usar o canudo com bebidas quentes. Mas, sinceramente, se a bebida está quente o suficiente que a pessoa não consegue usar ou colocar a boca no canudo de metal, ela, obviamente, vai queimar a boca toda com a bebida. Além disso, alguém aqui já viu uma bomba de chimarrão que não fosse de aço inox? Creio que não. Então sejamos razoáveis, pessoal, algumas más intenções são bem claras!

Então quando você se dispuser a aderir uma vida lixo zero, não são só questões financeiras que devem mover seu novo consumo. E sim todo um conjunto de processos envolvidos. Eu sei que meu canudo não é o mais barato do mercado, mas eu podia ter feito igual à maioria dos fabricantes. Feito o canudo e comprado a escova padrão feita com cerdas de nylon, que é plástico. Mas eu pensei diferente e fugi do convencional. E por que fiz isto? Porque não quis apenas me aproveitar de um nicho de mercado, quis que as pessoas realmente tivessem uma opção sustentável. Por isto mesmo criei escovas feitas com cerdas de material biodegradável: bucha vegetal e algodão. E não dá pra comparar uma com a outra. Elas são diferentes mesmo. Uma é feita por uma máquina, a minha é feita a mão, uma a uma. Qual será a mais sustentável?

O que quero dizer com isso tudo: Pra você comprar o meu canudo? Não exatamente, mas que ao resolver comprar produtos eco, reflita além de seus custos. Será que o mais barato é mais barato mesmo? Qual é o custo que importa pra você? Qual é o impacto da sua escolha para o meio ambiente? Qual o real impacto pro mundo do que você consome? E não pense que eu não tenho me questionando muito sobre tudo isto! Nessa mudança de vida cada gesto conta e saiba que os produtos são diferentes mesmo e a gente tem que aprender a entender essa diferença.

A bucha vegetal não limpa igual a tradicional, será mesmo? Ou será que esse tradicional foi incutido por um mercado capitalista opressor? Somos frutos do que experienciamos ou do que as indústrias querem que sejamos? Pra ser eco é preciso não ser apenas mais um enlatado na prateleira. É uma revolução de estilo de vida. Revolucione-se e mais que isso, liberte-se! Eu tenho achado libertador ser diferente do convencional e comer cenoura na ponte aérea porque o lanchinho é uma bolachinha que se diz natural, mas é embalada naquele maldito plástico aluminizado que não é reciclado no Brasil. Seja “esquisito” e sinta-se feliz com isso. O mundo é todo muito estranho, pelo menos estamos sendo legais com ele!

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