Consegue desconto pela quantidade?

Eu comecei esse texto já tem algum tempo. Era ainda o começo da venda de canudos
no Brasil e todos queriam tirar uma casquinha desse mercado. Alguns bem intencionados, mas muitos apenas pelos ganhos financeiros que enxergaram.
Atualmente, as vendas reduziram bastante, porque o mercado foi superlotado com uma enxurrada da produção ‘made in’. Na época também eu não tinha total consciência do que realmente significava isso e nem suas consequências ambientais no mundo.  E o que acontece? Bom, atualmente, podemos dizer que somos uma colônia chinesa: substituímos florestas por campos de soja e regredimos industrialmente. Alguns poucos acumulam capital à custa de nossas reservas áquiferas, nosso clima, nossa diversidade de fauna e flora. Acredito que isso deva acontecer com outros países também, tanto o fato de serem colônias modernas, quanto os prejuizos ao desenvolvimento industrial.

Esse nem é o ponto principal aqui, vamos voltar ao título. Na época que muita gente me pedia a tabela de valores de revenda dos canudinhos, a resposta vinha sempre seguida de “consegue um descontinho por quantidade?” Quando estamos falando de máquinas trabalhando, pode até ser que produzir grandes quantidades não faça diferença e seja até melhor, afinal é preciso pagar os investimentos que permitiram que não fosse preciso uma pessoa executando uma tarefa. Mas vocês sabem os impactos sociais que as automatizações trazem? É nos exigido em determinada idade escolher uma profissão, geralmente, pra ser util financeiramente ao sistema capitalista. Porém, muitas profissionais foram e continuam sendo sustituídas por máquinas, sempre com a justificativa de que é possivel rapidamente se reinventar e aprender uma nova habilidade. Será mesmo? Pra quem esse discurso soa fácil?

Se formos pensar, a maioria dos pequenos empreendimentos é fundados por estas pessoas que estão tentando se reinventar e, na minha opinião, acho curioso que eles não tentem fugir do sistema que os oprimiu. Abrir um empreendimento de cosméticos naturais e continuar consumindo fast-fashion, por exemplo. Ou abrir um negócio e continuar o ciclo de opressão da cadeia produtiva com remunerações injustas. É aqui que eu chego na parte do texto que eu falo sobre um estilo de vida, que todos nós que procuramos nos re-inventar deveríamos seguir. O texto é da Bruna Miranda para Um Guia Slow Living e explica:

“O Slow Living é tanto um estilo de vida quanto uma filosofia em comportamento de produção e consumo. Nesse último caso, as decisões de compra são baseadas em um senso comum de atributos e valores das marcas que enfatizam a qualidade sobre a quantidade, a autenticidade e as responsabilidades ambientais e sociais.” – Jason Drebitko, consultor americano de desenvolvimento de negócios

Devagar. Um estilo de vida inspirado no slow envolve uma abrangência que ultrapassa o significado literal da palavra. Viver mais lentamente? Sim, principalmente com a aceleração que tomou conta do mundo. Mas é bem mais do que isso. O slow living sugere uma vida e trabalho inspirados por valores simples e reais. Menos esquecidos pela velocidade, pelo piloto automático e pelos excessos que transformaram as pessoas em consumidores compulsivos e o senso de comunidade em competição acirrada.
Uma vida preenchida por significados, realizações e propósito. Equilíbrio. Sentir na pele e na alma o bem estar, a serenidade, o bem viver. De maneira holística, interconectados que estamos – todos nós e o planeta.
O conceito do slow living vai além do sustentável. Somado a isso, entram a cooperação, respeito, gratidão, celebração e resiliência. Um viver consciente inspirado por reflexões que nos direciona para novos olhares e novos caminhos. Em tempos conectados, um resgate de valores e sabedorias que trazem de volta o compartilhar. Conexão entre todas as pessoas, lugares e seres vivos, inclusive com nós mesmos. Cuidar e proteger nossa casa em um sentido mais amplo.
Podemos comemorar: essa visão já está sendo realizada em todo o mundo, por uma incrível variedade de pessoas. Ambientalmente, socialmente, economicamente e culturalmente. Todos em busca dos mesmos propósitos de uma vida mais plena, justa e respeitosa.
“O Slow Living é um incentivo sem regras e tarefas a serem cumpridas. Seu foco é na busca pessoal por mais leveza, equilíbrio e consciência, para novos e motivadores caminhos, descobertos e vivenciados a seu tempo e inseridos com consistência. Escolhas cuidadosas que abrangem seus benefícios para o nosso redor.” – Bruna Miranda, idealizadora do Review e Guia Slow Living

(Fonte: https://reviewslowliving.com.br/slow-living/) 


E essa é a ideia por trás do que eu faço e perguntas sobre desconto em quantidade denunciam que a pessoa está afim apenas de aproveitar o mercado e não fazer parte de um movimento. Acho ainda mais triste quando isso é feito por pessoas que também fazem trabalhos manuais ou são pequenos empreendedores, porque estas obrigatoriamente deveriam saber o real custo do trabalho. Então, trabalho manual com descontinho é exploração, sejamos educados e gentis para que possamos realmente nos reinventar e reinventar o sistema, cuidar do mundo dando valor justo às coisas e à vida.

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